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quinta-feira, 14 de junho de 2012

Cesca - Capítulo Final da Temporada

APENAS O COMEÇO

Por horas Cesca e Martiniani conversaram. Enfim chegaram a um acordo. Foi difícil convencer Marco que a guerra entre as duas famílias era sem sentido, que nenhuma das duas precisava do tesouro, financeiramente falando, mas que era dos Cesca por direito. Carpo ajudou na argumentação e foi elogiado e citado mais de uma vez por Marcelo Martiniani, que também estava lá.
Ana insistiu para ficar, assim como Glória e Lucy. Bárbara foi ao hospital com seu pai, sendo acompanhada por Bruno Martiniani. Foi estipulado que seria extinta a rivalidade entre as famílias. Os Cesca ficariam com tudo que lhes era de direito e os Martiniani iriam arcar com as despesas do hospital resultante do combate recente.

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— Ele vai ficar bem. – a médica informou quando todos já estavam no hospital. – Entretanto houve algumas complicações e ele precisará usar muletas por um tempo, e talvez uma bengala permanentemente. – ela avisou.
— Que complicações? – Bárbara quis saber.
— O joelho direito foi atingido por um dos projéteis, por isso é necessário absoluto repouso nos primeiros dias. – a doutora explicou.
— Podemos vê-lo, doutora? – Giovanni perguntou.
— Claro. Dois de cada vez, por favor. Sigam-me.
Giovanni e Bárbara seguiram a médica até o quarto onde Toni estava.
— Como está o ombro, Ana? – Carpo quis saber.
— Melhor, doendo um pouco, mas melhor. – ela respondeu.
— Ei! Isso quer dizer que vamos ficar na Itália até o tio Toni melhorar, certo. – Lucy perguntou empolgada para sua mãe que foi observada pelos outros.
— Bom, hã... – ela começou e pensou um pouco. – É, vamos sim! – ela confirmou e Lucy vibrou.

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Duas semanas se passaram e os irmãos Martiniani ofereceram um de seus iates para que os Cesca aproveitassem o fim de semana no mar.
— Ainda não acredito que estamos num iate dos Martiniani e que não somos mais inimigos. – Toni comentou, enquanto ele e Giovanni se dirigiam para o sofá na popa da embarcação.
— A vida é cheia de surpresas, meu irmão. – o mais velho disse.
Glória e Lucy estavam no topo do iate, sentadas a uma mesa colocada lá e embaixo de um guarda-sol. Bárbara e Ana se bronzeavam no espaço destinado a esse propósito na proa. Carpo estava apoiado num beiral a bombordo observando o mar azul. A carateca da família desceu para ir ao banheiro.
— Sua mãe está aí em cima, Lucy? – Giovanni perguntou ao vê-la descendo a escada.
— Está sim, tio. – a menina respondeu.
— Eu preciso falar com ela. – ele disse e subiu assim que Lucy desceu.
Antes de ir para o interior do iate, a menina viu Carpo sozinho e decidiu ir falar com o rapaz.
— É lindo, não é? – ela disse, ficando do lado dele.
— Ah, que susto, Lucy! Não faça mais isso. – ele disse inicialmente e respondeu. – Mas sim, é lindo demais.
— Sabe o que mais é lindo? O amor. – vendo que Carpo não entendeu sua insinuação, ela foi direta. – Você devia falar com ela.
— Ela quem? – ele se espantou.
— Isso é com você, mas fale. – Lucy disse, piscou e saiu.


Com biquínis apropriados deixando seus corpos exuberantes ainda mais atraentes, as duas primas mais novas se bronzeavam.
— Estou com sede. – Bárbara disse, sentando-se. – Vou pegar algo para beber, você quer? – ela ofereceu para Ana.
— Quero sim, obrigada. – a veterinária agradeceu e a outra foi em direção  a uma mesa com bebidas que havia perto delas.
Com os olhos fechados, Ana notou que uma sombra a encobria tapando o sol. Abandonou seu repouso ótico e viu Carpo parado a sua frente.
— Podemos conversar? – ele perguntou e em seguida eles foram na parte mais extrema da proa. – Sabe, acho que devíamos ter tido essa conversa bem antes. – o economista começou. – Não devíamos ter ligado para a chamada no aeroporto, nem nos intimidado pelos outros passageiros no avião ou mesmo, por suas primas depois. – ele continuou de modo nervoso. – Mas talvez isso tenha ajudado e não só atrapalhado.
— Aonde você quer chegar, Carpo? – ela apressou.
— Olha, isso é difícil para mim, eu estou tentando encontrar as palavras certas, mas não é todo dia que eu me declaro par... – ao ouvir essa última parte, Ana entendeu tudo o que ele estava tentando dizer e não precisou de mais nada para fazer o que há muito queria: beijá-lo.
O que, inicialmente, foi um beijo de surpresa se tornou um beijo correspondido e teria durado mais, não fosse os aplausos e gritos da “platéia” presente no iate.
— Até que enfim, hein! – Lucy gritou e assobiou, de volta do banheiro, com Glória e Giovanni.
— Dêem a volta! Precisamos conversar. – o pai de Ana chamou.
— Ixi! Você não devia ter me beijado. – Carpo murmurou.
— Não acredito que ainda tem medo do meu pai. – Ana comentou.
Com todos reunidos e acomodados, Giovanni começou a falar.
— Primeiro, gostaria de dizer que fico feliz que vocês estejam juntos. – ele disse para Ana e Carpo. – Você provou ser um homem de valor, rapaz. – Carpo assentiu. – Segundo, Toni e eu decidimos que está na hora de reunir a família novamente. Para tanto, duas partes teriam que se juntar a uma a fim de ficarmos todos no mesmo lugar. – ele disse.
— Curitiba foi a escolha lógica. – Glória continuou. – São Paulo já tem muita gente e a fazenda do tio Giovanni é longe de tudo. Já há algum tempo que quero abrir outra filial da empresa.
— Presumo que em seis meses, no máximo, esteja tudo pronto para nos mudarmos. – Giovanni supôs.
— Seis meses? – Carpo e Ana perguntaram ao mesmo tempo.
— É claro que você pode ir antes, minha filha. Procurar um emprego. Seu tio ficará muito feliz em recebê-la. Não é, Toni? – Giovanni disse.
— Com certeza. E será uma ótima oportunidade para você e Bárbara se conhecerem melhor. – Toni disse.
— E então, o que acham? – Glória perguntou.
— Eu acho que esse é apenas o começo de uma nova era. – Ana disse com um largo sorriso no rosto se sentindo mais feliz do que jamais havia estado em toda sua vida.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Cesca - Cap. 23


MOTIM

Bárbara entrou pela porta dos fundos da mansão, acessando a cozinha e, obviamente, não encontrou ninguém, todos estavam do meio para frente da casa. Apesar disso, ela tomou cuidado e olhou direito para confirmar se estava segura no local, em seguida, respirou fundo para ir ao interior da casa.
Enquanto isso, Carpo estancava o ferimento de Ana, que estava calma e tranquila, apesar da situação. O rapaz é que estava nervoso e ao mesmo tempo em que perguntava várias vezes se ela estava bem, ele lembrava tudo o que passaram juntos. Desde que ela o encontrou na estrada, levou-o para a fazenda da família dela e insistiu para que ele a acompanhasse em uma busca ao tesouro.
Mesmo com a falta de tempo que tiveram para conversar e a atração que sentiu pelas outras Cesca, no fundo ele sabia que de Ana que realmente gostava. E as expressões emburradas e respostas curtas que a moça dava quando Carpo estava conversando livremente com Bárbara, aparentavam que o sentimento era recíproco. Depois desse momento de reflexão, Carpo não soube muito bem o que fazer e antes que ele pudesse decidir, Bárbara apareceu.
— Carpo. – ela chamou ao vê-lo. – Ana! Oh, meu Deus! – ela gritou ao ver a prima encostada na parede ensanguentada. – O que aconteceu?
— Explico depois, ajude-me a levantá-la. – Carpo pediu.
Já de pé, os três se preparavam para sair pelo caminho que a Cesca loira entrou, quando os irmãos Martiniani chamaram pelo economista.
— Capo Barreto, vem nos ajudar com... Ei, o que está acontecendo, aqui? – Bruno perguntou ao ver as duas mulheres.
— Por que você está com a refém solta? E por que um dos nossos está morto no chão. – Marcelo emendou mais perguntas.
— Eu posso explicar. – Carpo disse.
O rapaz brasileiro contou parte da história resumida e porque mentiu para eles que fazia parte de uma família mafiosa.
— Vocês podem acabar com isso hoje, rapazes. Sei que não são como o pai de vocês. Vai dizer que gostam mesmo de ser mafiosos? Que não preferem uma vida tranquila, trabalhando naquilo que gostam durante a semana e curtir com a família e amigos nos finais de semanas e feriados? – Carpo disse.
— Confesso que já pensei nisso. – Bruno deixou escapar.
— Já pararam para pensar pelo que estão lutando? – Carpo perguntou e esperou alguns segundos para continuar. – O tesouro dos Cesca? Primeiro que é deles. Segundo, que vocês não precisam, são ricos. Qual outro motivo? Vingança? Pelo que? O que essas belas mulheres fizeram a vocês dois? – Carpo discursava inspirado para os Martiniani e as Cesca. – Nada. Então, qual a razão dessa guerra, afinal? Ela não é de vocês. E aposto que nem mesmo dos pais de vocês. Essa guerra foi entre Don Giuseppe Cesca e Don Vincenzo Martiniani e acabou. – Carpou parou para respirar e se aproximou dos irmãos. – Marcelo, Bruno, eu sei que vocês são bons. Acabem com isso, por favor. – ele disse com as mãos nos ombros deles.
Os irmãos Martiniani concordaram e o economista expôs seu plano. A neta mais nova iria com eles para a porta da frente da mansão parar o tiroteio, enquanto Ana e Carpo iriam até o escritório de Don Martiniani. O patriarca estava bebendo um copo de uísque em pé, olhando pela janela, quando bateram à porta.
— Entre. – ele disse e Carpo entrou acompanhado por Ana.
— Com licença, Don Martiniani. – o rapaz disse, enquanto a moça sentava em uma cadeira.
— Sim, Capo Barreto. – o mafioso respondeu e virou-se. – Mas o que está acontecendo? O que essa Cesca está fazendo aqui? – ele quis saber.
— Acho que isso pode ser caracterizado como um motim. – Carpo disse, pegou sua arma e a apontou para o Martiniani.
— Entendo. E você veio aqui para me matar?
— Não, estou aqui apenas para me certificar de que você não vai fugir, então faça o favor de não se mexer para que eu não tenha que, de fato, matá-lo. – Carpo disse e Don Martiniani levantou uma sobrancelha.


Do lado de fora da mansão, o tiroteio rolava solto. Os homens dos donos da propriedade estavam em grande vantagem e a munição dos Cescas estava no fim. Foi então que um grito foi ouvido em toda a extensa área em que estavam.
— Cessar fogo! – os irmãos Martiniani gritaram em uníssono.
Do topo da escada que ligava a porta ao chão, as vozes deles saíram e ecoaram pelo jardim. Bárbara estava entre os dois. Os mafiosos do campo de fogo pararam assim que ouviram a ordem dos dois Capos da família. Curiosos com a ordem dada, os Cescas olharam por cima da moita da qual estavam escondidos e viram a jovem loira com o inimigo. Tomado por seu instinto paternal, Toni saiu do esconderijo e correu em direção a sua filha.
— Bárbara! – ele gritou, ficando visível e se tornando um alvo fácil.
O sorriso da garota se transformou em expressão de horror ao ver seu pai receber uma sequência de tiros de uma metralhadora. Lucy, que ainda mantinha sua posição na lateral da casa, acertou o atirador de seu tio-avô. Toni caiu com vários tiros no tronco e alguns nas pernas e braços. Bruno gritou o cessar fogo novamente, enquanto Bárbara já estava a meio caminho de seu pai. Giovanni já estava prostrado ao irmão, quando ela chegou.
— Papai! – ela gritou em meio às lágrimas e ajoelhou-se.
— Sabe, Giovanni... – ele começou a falar com o irmão e tossiu um pouco. – Foi uma ótima ideia colocarmos colete antes de virmos... Uma pena que não cobria os membros também... – ele terminou tossiu mais um pouco e desmaiou.
— Preciso de uma ambulância aqui na Mansão Martiniani urgente. – Marcelo veio dizendo quando se aproximou da família Cesca.
— Podemos saber o motivo do cessar-fogo? – Glória perguntou, enquanto Lucy chegou e abraçou-a.
— Considere uma oferta de paz. – Bruno disse.
— Suponho que o pai de vocês não saiba disso. – Giovanni observou.
— Que bom que tocou nesse ponto. – Marcelo disse e os dois irmãos se olharam.
No escritório, o clima estava bem pesado. Carpo continuava a apontar a arma para Don Martiniani, que tentava distrair o rapaz, enquanto Ana mantinha os olhos atentos a tudo o que o mafioso fazia.
— Oh, acabou meu uísque. Posso reabastecer. – Marco pediu.
— Não. – Carpo respondeu secamente.
— Sabe, Sr. Barreto, devo dizer que o subestimei. – o mafioso disse.
— Ah, cala a boca. – Ana falou, surpreendendo os dois.
— Ora, ora. – Don Martiniani zombou, no momento em que a porta foi aberta violentamente.
— Você devia ouvir minha filha, Marco. – Giovanni disse ao entrar, sendo acompanhado pelos irmãos Martiniani, Lucy e Glória.
Ana levantou e abraçou seu pai fortemente por um momento.
— Abaixe a arma, rapaz, ele não fará mais nada. – Giovanni disse a Carpo. – Sente-se, Marco, vamos conversar. – ele disse ao Don Martiniani.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Fogo contra fogo


– Vocês não vão! – Giovanni decretou.
– E dois tiozinhos, com mais de 60 anos cada, vão enfrentar uma máfia inteira sozinho? – Glória indagou.
– Você faz parecer tão negativo. – Toni observou.
– Podemos ser poucos e velhos, mas somos úteis. Se vocês forem, serão apenas mais uma preocupação para nós. – Giovanni explicou.
– Aí que o senhor se engana, meu tio. Eu sei atirar e pratico desde que a Lucy começou o caratê. – a mais velha disse.
– E eu sou faixa preta, e também sei atirar, pratico há um ano. – Lucy emendou e, junto com Glória, olhou para Bárbara.
– Eu... não sei atirar. – ela começou devagar. – Mas dirijo muito bem. – ela falou rapidamente ao lembrar algo em que poderia ajudar.
– Muito bem, vamos nos armar. – Giovanni aceitou a contragosto e todos saíram do hotel.
Em uma loja de ferramentas, os Cesca encontraram um velho amigo da família, Olavo o antigo vendedor de armas.
– No credo! Giovanni! Toni! – o italiano exclamou e abraçou cada um dos irmãos.
– Olavo, precisamos de armas. – Giovanni disse.
– Venham comigo.
Depois de explicada a situação, Olavo mostrou-lhes seu arsenal. Nos fundo de sua loja havia as mais variadas pistolas, espingardas e automáticas. Os mais velhos começaram a escolher, sendo seguidos por Glória que entendia um pouco também. Toni pegou um rifle AK-47, três pistolas e pentes de munição.
Giovanni e Glória preferiram espingardas, mas também pegaram pistolas. Lucy e Bárbara estavam meio perdidas. A mãe da carateca lhe entregou uma arma, mas com uma recomendação.
– Tome cuidado, use os ensinamentos das aulas. – Glória disse.
– Sim, mamãe.


Na mansão Martiniani, Carpo, depois que levantou, achou que teria tempo de ver Ana em determinado momento, mas não conseguiu se livrar dos filhos de Marco. Eles o encheram de perguntas e, apesar da situação, Carpo simpatizou com os rapazes. A conversa, porém, foi interrompida por um barulho vindo do portão da grande propriedade.
Um pequeno caminhão derrubou o portão e ficou transversal ao jardim que o separava da mansão. Seus ocupantes rapidamente desceram do veículo e ficaram atrás dele, usando-o como uma barricada para suportar os tiros dos inimigos. No imenso jardim, havia uma fonte com um chafariz no centro e vários arbustos ao redor formando um pequeno labirinto.    
– Vamos usar a vegetação para avançar até a casa. – Toni disse.
– Há muitos deles. Não dá para ir todo mundo. – Giovanni observou enquanto o caminhão recebia uma série de tiros.
– E não precisa. – Glória disse. – Lucy, você e Bárbara podem seguir pela lateral e entrar por alguma janela da casa. Nós cobrimos vocês.
– Sim! – a menina assentiu.
Assim, as duas Cesca seguiram ao lado do jardim e além do trecho que havia para os carros passarem. Entre uma árvore e outra, elas corriam mais. Enfim, alcançaram a borda da casa. No entanto, em vez de seguir, Lucy parou, notando o quanto os inimigos haviam avançado e o quão encurralados seus tios e sua mãe estavam.
– Prima, segue você. Liberte Ana e Carpo. Eu vou ficar aqui e ajudar a acertar esses manes. – a carateca disse.
– Cuide-se, Lucy. – Bárbara pediu e foi em busca de uma entrada.
Dentro da mansão, mafiosos corriam para todos os lados buscando munição e avisando posições. Marco mantinha-se em seu escritório. Marcelo e Bruno foram até a porta para analisar a situação e informar o Don da família.
Aproveitando a bagunça e falta de atenção sobre ele, Carpo foi onde Ana estava. Abriu a sala, desvendou-a e começou a desamarrá-la.
– Carpo! O que está acontecendo? Eu ouvi vários tiros. – ela disse. – Nossa, mas que terno mais...
– Mafioso? Também acho. – ele completou e a atualizou do que estava acontecendo.
– Então, vamos sair logo daqui. – ela disse e avançou à porta, abrindo-a.
Ao fazer isso, porém, Ana, sendo a primeira a sair, foi vista e reconhecida.
– Refém em fuga. – um mafioso gritou e atirou em seguida.
A moça só teve tempo de olhar para seu atirador antes de escorregar ao longo de uma parede com um tiro no ombro esquerdo. Carpo apareceu logo após e ficou paralisado com o que viu. O mesmo ocorreu com o atirador ao ver o Capo convidado ali.
– ANAAAAAA! – o economista gritou e abraçou a Cesca.
– Car... po... – ela murmurou.
– Shh, não fala. Pressiona o local aqui. – ele disse e colocou a mão dela sobre o ferimento. – Nós vamos sair daqui e vai ficar tudo bem, eu prometo.
Carpo levantou, virou-se e encarou bem o mafioso que atirou em Ana. Ele ficou muito feliz de não ter sido Bruno ou Marcelo, pois não sabe se teria coragem de fazer o que fez em seguida.
Pela primeira vez em sua vida, Carpo matou uma pessoa.

domingo, 13 de maio de 2012

Capo


– Qual o seu nome? – Marcelo perguntou.
– Carpo. – o rapaz decidiu dizer a versão resumida de seu nome, pois sabia que acabaria nela de qualquer jeito.
– Capo? – Bruno repetiu.
– É, na verdade...
– De que família? – Marcelo o interrompeu.
– Barreto. – Carpo falou devagar para tentar entender o que estava acontecendo.
– Engraçado, nunca ouvi falar dessa família. – Bruno comentou.
– Nem eu. Vocês são novos? – Marcelo perguntou para Carpo.
Carpo estava amarrado a uma cadeira em um pequeno cômodo da mansão Martiniani. Os dois filhos de Marco tinham sido incumbidos de descobrir a identidade do rapaz que estava com Ana, que havia sido colocada em igual condição no cômodo ao lado.
A resposta que daria àquela pergunta seria crucial e determinante para o economista. Foi então que ele se lembrou de uma matéria de seu curso, história da economia, parte dela consistia no estudo das máfias, que foram importantes de certa forma para a economia italiana da época.
Na hierarquia das famílias mafiosas havia um cargo chamado Capo, logo abaixo de Don. Era muito importante e respeitado. Talvez por ter falado rápido ou baixo, Carpo estava sendo confundido com um mafioso. Ele decidiu usar isso a seu favor.
– Sim, na verdade, estamos nos reerguendo, mas de forma discreta. – ele respondeu. – Por isso vocês não ouviram falar ainda.
– Entendo. E o que você estava fazendo com os Cesca?
– Ora, estou atrás do tesouro perdido deles, assim como vocês. Achei que seria fácil, e estava sendo, mas não sabia que teria concorrência. – Carpo explicou.
– O senhor nos dá licença um minuto, Capo? – Bruno pediu.
Carpo assentiu e os dois irmãos saíram do cômodo. O economista tinha uma ideia do que aconteceria a seguir. Eles voltaram e o desamarraram. Levantaram-no e o tiraram da sala em que estava.
– O Babbo quer falar com você. – Marcelo informou no caminho.
No escritório principal da mansão, Don Martiniani tomava um copo de uísque. Ele esperou Carpo sentar a sua frente e o encarou por um instante.
– Meus filhos me disseram que o senhor é o Capo da família Barreto.
– Sim, senhor. – Carpo concordou.
– Que vocês estão se levantando agora, mantendo a discrição e por isso eu nunca ouvi falar dos Barreto. – Marco continuou.
– É isso mesmo. – o rapaz confirmou.
– Qual o ramo de vocês?
– Economia. – Carpo resolveu não mentir nessa parte para não se complicar mais.
– É uma boa área. – Don Martiniani elogiou. – Também fui informado de que o senhor também está atrás do tesouro dos Cesca.
– Sim, senhor, é verdade.
– Então, como resolvemos isso?
– Não há o que resolver, o tesouro é de vocês. Só peço uma parceria.
– Parceria?
– Sim, entre os Martiniani e os Barreto. Tenho certeza de que as duas famílias poderiam tirar grandes proveitos disso. – Carpo propôs.
– Não é uma má ideia. O senhor acaba de ser promovido de refém a hóspede na mansão Martiniani. – o Don disse. – O seu terno está sujo.
– Tinha bastante sujeira naquele porão. – Carpo explicou.
– Tenho certeza de que sim. Bruno, Marcelo, levem-no ao quarto de hóspedes e arranjem um terno novo para o Capo Barreto. – Marco mandou.
– Sim, senhor. – os filhos responderam em uníssono.


– Como é que é? – Glória disse e um monte de perguntas foi feito aos dois mafiosos.
– Acalmem-se! – Toni pediu.
– O que vamos fazer agora? – Lucy perguntou chorando.
– O que, talvez, devêssemos ter feito décadas atrás: enfrentar os Martiniani! – Giovanni declarou.

domingo, 6 de maio de 2012

Herança


– Toni e eu conversamos ontem à noite e decidimos fazer dois grupos para procurar os tesouros. – Giovanni comunicou a todos, enquanto estavam sentados nos sofás do salão de entrada do hotel.
– Eu não concordo com isso. – Carpo disse.
– Ah, não? – Giovanni repetiu incrédulo por terem discordado de seu plano.
– Não. O tesouro está dividido em três categorias, portanto deveríamos nos dividir em três grupos, otimizando o nosso tempo. – o rapaz explicou.
– O Carpo tem razão, papai. – Ana disse.
– Certo. Então seremos três grupos. – Giovanni recomeçou. – Toni e Bárbara vão atrás das obras de arte; Glória e Lucy vão atrás das jóias; e Carpo, Ana e eu vamos atrás do dinheiro.
– Eu também não concordo com isso, senhor. – Carpo interveio.
– Ah, também não? – Giovanni repetiu tentando manter a paciência.
– Não. A cidade não é muito grande e io parlo italiano troppo. Além disso, devemos lembrar que os Martiniani mandam aqui. Por isso, acho que seria melhor ter um homem em cada grupo. – Carpo explicou.
– Muito bem, rapaz, então... – Giovanni começou.
– O senhor deveria ir com a Glória e a Lucy, papai. – Ana interrompeu.
– O que? – ele repetiu espantado com a sugestão.
– Isso mesmo, tio Giovanni! Venha conosco! – Lucy pediu e abraçou o mafioso fortemente.
De modo relutante, Giovanni aceitou a divisão sugerida por Ana e Carpo. Junto com Toni, ele explicou que cada mensagem continha uma charada em si, e, uma vez resolvida, poderia se saber o local onde estaria a parte da herança. Como Ana e Carpo iriam sozinhos, foi-lhes explicado que o local da parte da qual eles cuidariam era o porão da antiga casa dos Cesca.
Os dois chegaram a grande mansão incendiada, ou o que sobrou dela. A família Martiniani decidiu comprar o terreno e deixar a mostra para servir de exemplo para quem quisesse desafiá-los. Para lembrar que eles derrotaram os Cesca.
Ana e Carpo entraram e, seguindo as indicações dadas por Giovanni, foram até o escritório da casa. Lá, ambos procuraram pelo chão alguma saliência que pudesse ser puxada. Depois de um tempo, o economista encontrou. Eles a puxaram, revelando a entrada de um porão. Usaram as lanternas que levaram para iluminar o caminho, enquanto desciam.
Passaram por algumas estantes velhas e no fim encontraram a parte em dinheiro da herança dos Cesca. Cinco caixas empilhadas, com várias mochilas e sacos ao redor. Ao conferirem, confirmaram que as caixas tinham densas barras e as mochilas e sacos, moedas de ouro. Então, um barulho os tirou do transe de admiração em que estavam.
– O que foi isso? – Ana perguntou assustada.
– Fique aqui. Eu vou ver. – Carpo disse.
– Eu vou com você. – ela decidiu e não o deixou impedi-la.
Devagar, eles saíram do porão e, antes que pudessem sair do escritório, se viram cercados por vários homens armados em ternos risca-de-giz.


Giovanni, Glória e Lucy haviam conseguido pegar as jóias e voltavam para o hotel. Sentaram-se com Toni e Bárbara, que também haviam pegado sua parte.
– Anita e Carpo ainda não chegaram, tio? – Glória perguntou.
– Não, mas não chegamos há muito tempo. Talvez já estejam a caminho. – Toni respondeu.
– Isso é estranho, eles ficaram com a parte mais fácil. Já deveriam estar aqui. – Giovanni ponderou.
– E se não conseguiram carregar tudo o que tinha? Ouro pesa mais que jóias e papel. – Glória comentou.
– Não. Tem algo errado! Toni, venha comigo. Vamos até nossa antiga casa. – ele chamou o irmão. – Vocês vão para os seus quartos e fiquem lá. – ele avisou para as mulheres.
Na casa incendiada, eles não perderam tempo, foram direto ao escritório de Don Cesca. Na mesa usada pelo pai, encontraram um bilhete, que traduzido do italiano tinha o seguinte conteúdo:
“Se quiserem ver a neta de Don Cesca viva novamente, tragam as jóias e as obras de arte adquiridas por sua família tempos atrás e tragam à mansão Martiniani até o meio-dia de amanhã.”

domingo, 29 de abril de 2012

Martiniani


Enquanto voava de volta para a Itália ao saber que suas inimigas haviam decidido ir para lá, Marco Martiniani se lembrava da época em que sua família se tornou a dominante no país.
Após a morte de Don Cesca, Don Martiniani mandou incendiar a casa do inimigo. Sabendo desse fato, as famílias que não fugiram, decidiram se juntar aos Martiniani, assegurando-lhes o poder que tanto queriam. Naquele tempo, Marco estava afastado da máfia a pedido de seu pai, Vincenzo.
Marco tinha um filho de 2 anos e sua mulher já esperava outro. Assim que a situação ficou mais tranquila após a queda das famílias mafiosas, Vincenzo deixou que seu único filho voltasse aos negócios. Com o passar dos anos e a velhice chegando, Don Martiniani adoeceu e faleceu, passando seu título para Marco.
Seus filhos, Bruno e Marcelo, cresceram e tomaram seus lugares nas empresas da família, mas não tinham aquela paixão mafiosa do pai e do avô. Eles ouviram a história de seus antecedentes e sabiam seu papel na família, mas ainda assim, não tinham a empolgação que Marco esperava. Bem por isso, ele mesmo veio para o Brasil encontrar as Cesca.
Ele tomava um copo de uísque quando viu a arquitetura conhecida da Itália pela janela do avião. Estava chegando em casa. E, de repente, aquela mudança de cenário tinha sido boa, afinal aquele era o terreno dele. As Cesca não teriam chance em um lugar em que os Martiniani mandam.


O mais rápido que pôde, Glória conseguiu vistos para todos e eles seguiram, no avião particular da Barbatto Construções, rumo à Itália.
– Você tem bastante recursos, minha sobrinha. – Giovanni comentou.
– Pois é, tio. O divórcio tem suas vantagens. – ela disse.
O grupo aproveitou a viagem para se conhecer melhor, principalmente, as primas entre si. Durante a conversa feminina, os dois ex-mafiosos foram se trocar.
Então, Carpo se viu em uma situação inédita até o momento. Ele estava sozinho em um lugar com as quatro Cesca. Elas entraram num assunto de roupas e cabelo. O rapaz fechou os olhos e tentou dormir. Em seus sonhos, ele ouviu a conversa das primas mudar de rumo e chegar até ele. De repente, elas estavam brigando por ele, mas aí viram que era inútil e o procuraram.
Ele deveria decidir com qual queria ficar, mas não conseguia. No fundo ele queria poder ficar com todas. Sabia que não poderia, mas esperava ter mais tempo para pensar nisso, não com os pais de duas delas no cômodo ao lado. Elas o pressionavam, criticavam umas às outras, fazendo-o suar e se desesperar, quase não querendo nenhuma.
– Carpo! – Ana o chamou, notando o suor e seu sono inquieto.
– AHH! – ele acordou sobressaltado. – O que? Ana! – ele disse se acalmando. – O que houve?
– Acho que você teve um pesadelo, mas está tudo bem agora. – ela disse. – Ah! Uma boa notícia. Estamos chegando! – ela informou com um sorriso.
Giovanni e Toni voltaram vestindo seus ternos pretos risca-de-giz, com camisa cinza e gravata preta e camisa branca e gravata cinza, respectivamente.
– Qual é o plano? – Bárbara perguntou.
– Vamos encontrar a herança que o avô de vocês nos deixou e voltar para o Brasil! – Giovanni respondeu.
               Ao pousarem, dois carros os esperavam. Após embarcarem foram levados para o hotel que ficariam.

terça-feira, 24 de abril de 2012

As caixas


– Fratello mio! – Giovanni disse ao abraçar Toni.
– Giovanni! – o caçula respondeu.
Os dois irmãos se separaram e então foi a vez de Ana abraçar o Giovanni.
– Vejo que cuidou bem da minha menina, rapaz. – ele disse para Carpo assim que Ana o soltou.
– Eu lhe dei a minha palavra, senhor, e eu sempre cumpro a minha palavra. – o economista disse.
– É muito bom saber disso.
Após as apresentações, todos se sentaram em volta do centro de mesa da sala de estar. No sofá do meio, de três lugares, estava Toni na extremidade direita, seguido por Bárbara e Glória. Ao lado do ex-mafioso em uma poltrona, estava Giovanni. Na outra extremidade, próximos a executiva, estavam Lucy, Ana e Carpo, em um sofá de dois lugares.
 Toni contou que logo após a saída do grupo a Paranaguá, decidiu que teria de dizer a verdade, em parte porque não sabia se o atendente dos correios iria guardar seu segredo ou não. Mas boa parte foi por algo que Ana falou.
– O que? – ela quis saber.
– Os Martiniani. – ele disse.
Continuando sua narrativa, o ex-mafioso explicou que contou para o irmão com o número que havia conseguido pelo celular de Ana, em um momento depois do almoço. Após 26 anos sem se falar, eles tinham para conversar, mas Toni usou o mínimo de tempo possível para colocar o irmão por dentro da situação e convencê-lo a ir para Curitiba.
Ponderando os argumentos do mais novo, Giovanni disse que tentaria chegar ainda naquele dia. Andando de um lado para o outro, segurando a ansiedade que o consumia e absorto em seus pensamentos, Toni foi interrompido pela campainha.
– Toni De Lucca? – Glória perguntou assim que a porta foi aberta.
– Deixa eu adivinhar: Glória? – ele perguntou.
– Você já conheceu a Anita e a Lucy, né? – ela disse, entendendo.
– Sim. – ele confirmou. – Entre.


– Pouco depois, vocês chegaram. – Glória acrescentou.
– Então, tio Toni, por que não nos conta o que o nonno Pepe lhe disse? – Ana sugeriu.
– Certo. Meu pai me disse que ele não ia entregar uma caixa para cada um, mas sim todas para mim, e eu deveria, quando achasse mais apropriado, entregar aos outros. – ele disse.
– O momento apropriado. – Giovanni resmungou.
– Uau! Don Cesca queria mesmo que vocês trabalhassem em conjunto hein! – Carpo exclamou e levantou.
– Como assim, Carpo? – Ana perguntou, curiosa.
– Vejam só: o Sr. Toni deveria receber todas as caixas e repassá-las aos irmãos; o Sr. Giovanni deveria contar às famílias sobre o passado mafioso; e o Sr. Carlo deveria dizer que as caixas só abrem se estiverem juntas e ao mesmo tempo. – ele disse e a última informação surpreendeu os ex-mafiosos.
Depois de explicado sobre o segredo do pai de Glória, Toni decidiu.
– Acho que está na hora de abrir aquelas, não concordam? – ele disse.
– Ótima ideia, tio Toni. – Lucy concordou.
– Giovanni, Carpo, ajudem-me a trazer. – ele chamou.
Os três voltaram com três caixas de tamanhos diferentes. Uma mais alta e retangular; outra quadrada e mais baixa que a primeira; e uma terceira mais baixa que todas e também retangular. Elas possuíam nas laterais, dispositivos que as uniam.
O centro de mesa foi substituído pelas caixas, que, após serem encaixadas ficaram em ordem crescente parecendo uma pequena escada. Cada uma das Cesca ficou de frente para sua caixa correspondente. Toni e Giovanni decidiram deixar suas filhas terem a honra junto com Glória. O tamanho das caixas concordava com a idade das primas.
Os três homens e Lucy estavam em frente a elas assistindo, enquanto elas colocavam as chaves e preparavam para girar.
– No três. Um, dois... três! – Ana contou e todas abriram ao mesmo tempo.
Cada uma abriu sua caixa, e todas se surpreenderam com o conteúdo.
– Só isso? – Glória criticou. – Achei que estaria cheia de jóias. Só veio um anel com um papel dentro. – ela disse retirando o papel.
– O que ta escrito? – Carpo quis saber.
– Espera, está em italiano. – ela disse e leu algumas vezes. – Diz aqui: “Para você, meu filho Carlo, lhe dou um anel de rubi para que lembre que rubi não é nada sem a safira e a esmeralda.”
– Que confuso. – Lucy disse.
– Também achei. – Glória concordou. – O que veio na sua, Anita?
– Um envelope com uma moeda de ouro e um bilhete. Lê prima. – Ana pede.
– “Para você, meu filho Giovanni, lhe dou uma moeda de ouro para que lembre que um mafioso sempre guarda seu ouro em casa.”
– Bárbara? – Ana pergunta.
– Veio um quadro e um bilhete enrolados. – ela disse e passou o bilhete para Glória ler.
– “Para você, meu filho Antonio, lhe dou essa pequena obra para que lembre que a arte deve ficar em sua terra natal para ser vista e admirada.”
– O que quer dizer tudo isso? – Lucy perguntou.
– Que seu bisavô nos enganou. Ele nunca mandou ou teve a intenção de mandar o tesouro para o Brasil. – Giovanni concluiu.
– E o que vamos fazer agora? – Carpo perguntou, sem ideias.
As três Cesca se entreolharam, sorriram e Ana falou por todas.
– Nós vamos para a Itália!

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Todos juntos


Antes de descer da limusine que a havia levado ao aeroporto da empresa, Glória preencheu um cheque para dar ao segurança que a ajudou. Valdez vendo o que iria acontecer, tentou oferecer mais ainda seus préstimos.
– Posso acompanhá-la até São Paulo, se quiser. – ele disse.
Ela ainda estava machucada, não tinha ido ao hospital, preferiu ir direto ao aeroporto. Seria bom ter uma companhia, uma segurança para ir para a capital paulista, mas ela sabia que lealdade não era o forte do rapaz, e não pretendia arriscar sua vida no caso de um dia alguém poder pagar mais do que ela.
– Não, obrigada. Agora, eu me viro. – ela disse e lhe entregou o cheque.
Glória entrou no avião e, com uma ordem sua, ele decolou. Antes de qualquer outra coisa, ela foi olhar seu celular e nele tinha uma mensagem de Lucy.
“615131519 16181 32118920921 141 31191 415 2015149, 5143151420185-141519 121. 205 11315, 2019.”
Ela logo reconheceu o código alfanumérico que usava com a filha e não teve dificuldades em decifrar a mensagem, afinal após tanto tempo de uso as letras e seus números correspondentes já estavam gravados em sua memória. Não demorou para ela chegar ao seguinte resultado.
“Fomos pra Curitiba na casa do tio Toni, encontre-nos lá. Te amo, bjs.”
– Essa é minha filha. Muito esperta, Lucy. – Glória elogiou e apertou um botão. – Azevedo, mudança de destino, nós vamos para Curitiba.
– Sim, senhora. – o piloto respondeu.
Por ter feito várias viagens com o avião particular, a empresária passou a deixar algumas roupas no veículo. Decidiu por algo mais casual e vestiu uma calça jeans e uma camisa creme de manga comprida. Usou o kit de primeiros socorros para limpar e o estojo de maquiagem para disfarçar os ferimentos. E então descansou o resto da viagem.


No caminho de volta, o silêncio reinava dentro do carro de Bárbara, que ainda estava sendo dirigido por Carpo. O rapaz não conseguia parar de pensar no que haviam descoberto e, mal sabia ele, que as Cesca estavam pensando a mesma coisa. Ana lembrava bem o trecho da conversa que tinha sido confuso.
– O que meu avô disse para o senhor? – ela perguntou.
– Nada. Ele só me chamou para os meus irmãos acharem que eu também tinha um segredo. – Toni respondeu.
Ana achou aquilo estranho, mas não quis duvidar da palavra do tio que acabara de conhecer.
– O senhor chegou a ir aos correios para ver se algo tinha chegado?
– Não, eu sabia que só chegaria um ano depois e que seria no Rio, e nesse tempo, eu ainda não estava bem financeiramente, não tinha como eu viajar. Quando tive condições, já não tinha mais interesse. – ele explicou.
Na hora pareceu coerente, mas ao parar para pensar, Ana viu que aquilo era muito contraditório. Ele era um ex-mafioso recém chegado da Itália, se houvesse uma mínima chance de ele conseguir dinheiro fácil para recomeçar a vida, ele iria atrás.
Bárbara havia tido mais informações do que gostaria em um dia. Primeiro, seu pai lhe contou sobre seu passado secreto e, além de tudo, ele mentiu sobre isso. “Por quê?”, era só o que ela se perguntava.
Lucy não parou muito nessa questão. A jovem carateca só pensava se a mãe dela teria recebido e lido sua mensagem. Ela queria que Glória estivesse ali participando da aventura também.
Já era noite quando eles chegaram à casa de Toni. Ao abrirem a porta viram, sentada no sofá da sala de estar, conversando com o ex-mafioso, a mais velha das Cesca.
– Mamãe! – Lucy gritou e agarrou o pescoço da empresária e as duas se deram um longo e apertado abraço.
– Como você está, meu amor? – Glória perguntou.
– Eu to bem, e você? Nossa! O que houve com seu rosto? – a menina perguntou. – Você andou brigando? Quem bateu em você? – ela emendou com tom assustado.
– Calma, eu já explico. – ela disse e cumprimentou Ana.
– Ta tudo bem mesmo, prima?
– Sim, Anita, não se preocupe. – Glória a acalmou.
– Você foi num hospital? Não tem nada mais grave? – Carpo quis saber.
– Não foi nada demais, mas obrigada por se preocupar. – Glória disse. – Então, essa é a minha prima mais nova? – a empresária se dirigiu a Bárbara. – A que ainda estava na barriga quando saímos da Itália. – ela continuou, segurando uma das mãos da loira e passando a outra mão em seu rosto. – Muito linda, mesmo. Uma verdadeira Cesca! – Glória finalizou com um sorriso.
– Então, tio Toni. – Ana disse com todos já sentados. – Por que o senhor mentiu para nós? – ela perguntou, indo direto ao ponto.
– Eu menti para vocês? – ele disse, fingindo espanto. – Acho que você está equivocada, minha sobrinha.
– Por favor, senhor Toni, não nos enrole mais, já sabemos de tudo. – Carpo disse.
Ana explicou o que houve em Paranaguá e como descobriram que Toni havia pegado um pacote proveniente da Itália um ano após se mudar de lá.
– Você nos deve uma explicação, tio. – Ana exigiu.
– Sim, eu devo e farei isso assim que o último convidado chegar... Oh, lá vem ele. – Toni disse e se levantou.
– Último convidado? – Ana perguntou.
– Sim, alguém que você conhece muito bem. – ele respondeu e abriu a porta, revelando um homem alto vestindo uma calça jeans e uma camisa, e usando um chapéu.
– Boa noite a todos! – Giovanni cumprimentou.
– Papai! – Ana ficou em pé e gritou. Em seguida, todos se levantaram também.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O dinheiro manda


– Vou repetir mais uma vez: onde está o dinheiro e as jóias que Don Cesca lhe deixou? – Marco Martiniani perguntou depois de dar outro soco em Glória.
– Eu já disse que não sei e, cá entre nós, acha mesmo que eu diria, se soubesse? – ele respondeu e foi esmurrada novamente.
Era uma sala escura, havia apenas uma grande lâmpada mirando na neta de Don Cesca. Glória estava sentada e amarrada em uma cadeira. Além dela e do italiano, havia mais uma pessoa na sala, um segurança de Barbatto, Ademar Valdez. Desde que começou a ser interrogada, a mais velha das Cesca, por não dizer o que Martiniani queria ouvir, apanhou bastante, chegando a sangrar e a ganhar hematomas. Cansado de não obter resultados, Marco decidiu acabar com o sofrimento da empresária.  
– Não vai falar? Tudo bem, talvez sua filha coopere. – ele ameaçou.
– Não ouse chegar perto da Lucy. – Glória replicou.
– Senão o que? – o italiano quis saber.
– Você vai aprender que não deve mexer com as Cesca. – ela devolveu.
Marco gargalhou tão alto que ecoou na pequena sala escura.
– Você é engraçada, querida, além de muito bela. É uma pena. – ele disse e alisou o rosto machucado dela com a mão. – Mate-a! Ela não tem mais serventia.
Assim que o italiano bateu a porta, Glória ouviu uma arma sendo destravada e mirada em seu rosto. Ela olhou bem para o rapaz, conhecia-o. Ele era ganancioso e fazia tudo para ganhar mais dinheiro. Ela decidiu usar isso a seu favor. Ele estava pronto para puxar o gatilho.
– Espera! – ela pediu e ele parou. – Eu pago o dobro do que o Diogo está te pagando. Preciso que me desamarre, devolva minha bolsa, me leve até ele e depois me chame um táxi. – ela estabeleceu.
– Pelo dobro do que ele me paga, eu mesmo levo a senhora, aonde quiser. – o segurança disse.


– Você mandou matá-la? – Barbatto se surpreendeu.
– Sim, ela não estava colaborando, e ainda há três Cesca que podem me dizer o que quero saber. – Marco disse simplesmente.
– Mas...
– Não seja fraco, Barbatto. Nem sua mulher ela era mais. Estou indo para o meu hotel. Avise-me quando estiver com sua filha. – o italiano pediu.
Não demorou muito após a saída do Martiniani da sala de Barbatto para que Glória entrasse.
– Olá, Diogo! – ela disse com raiva e cansaço.
– Oh, meu Deus! Você está viva! – ele se espantou.
– É, desculpa estragar os seus planos.
– Não, eu não sabia que ele ia fazer isso. Ele só me disse que queria te perguntar umas coisas. – Barbatto disse se levantando.
Glória estava de um jeito que ele nunca havia visto, com a camisa toda suja e sem os sapatos de salto alto, com o rosto todo machucado e sangrando, e os cabelos desarrumados.
– Olha para você. – ele disse e ia passar a mão no rosto dela.
– Não encoste em mim. – ela parou o movimento. – Não adianta bancar o arrependido comigo. Eu sei quem é você, e só vim aqui te dizer que eu vou acabar com você. Não por mim, mas por envolver nossa filha nisso. Isso foi baixo demais, mesmo vindo de você. – ela avisou.
– Orgulhosa até o fim, não? Não vê que só estou tentando ajudar. – ele disse e pôs o braço no ombro da ex-mulher. – Vamos, eu te levo ao hospital.
– Eu disse para não encostar... – ela disse, torceu o braço dele com o braço direito dela e o socou com o outro braço. – ...em mim!
O empresário cambaleou para trás, mas assim que se recuperou deixou a boa vontade que estava tendo antes e partiu para cima de Glória. Ele tentou devolver o soco com braço direito, porém a Cesca habilmente desviou-se para o lado de fora do golpe e o atacou na dobra do cotovelo, inutilizando aquele membro.
Barbatto urrou de dor e em seguida preparou um chute com a perna direita. Glória segurou o golpe com o braço esquerdo e bloqueou o soco que o ex- marido desferia com o braço bom. Num movimento rápido, ela levantou a perna do empresário até derrubá-lo. No chão, ele pôde ver a arma que guardava sob sua mesa e sentiu que seria sua única chance naquela luta.
– Você não achou mesmo que eu ficava o dia inteiro no salão de beleza né? Ou que eu ficava só esperando enquanto a Lucy fazia caratê? – enquanto Glória falava, ele se levantava e chegava perto da mesa.
Rapidamente, ele pegou a arma e ficou de pé, apontando a pistola para a ex-mulher. Ela paralisou inicialmente, mas ao vê-lo se aproximando e dando a volta na mesa, teve uma ideia. Quando ele ficou de frente, ela afastou o braço que segurava a arma e lhe deu uma cotovelada com o outro braço. Ao mesmo tempo, ela pegou a pistola para si e apontou para o ex-marido caído no chão.
– Sabe que outra aula eu fiz? – ela perguntou e viu a dúvida nos olhos de Barbatto. – De tiro. – ela respondeu e atirou no ombro esquerdo, pois sabia que o direito iria ficar inutilizado por um tempo mesmo. – Você tem sorte em ser o pai da minha filha. – ela disse atirou no joelho direito dele. – Não fosse isso, você já estaria morto agora. – ela finalizou, guardou a arma e saiu.
Ao sair, encontrou o segurança que a esperava.
– Eu ouvi tiros. Você o matou? – ele perguntou assustado.
– Não. Leve-me ao aeroporto da empresa, preciso voltar para São Paulo.