Total de visualizações de página

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Virada de jogo


“O plano de Júlia era simples: ela iria dizer ao capanga que estava de guarda que eu fugi para o lado em que o marido dela fazia as cobranças do povo, enquanto eu estaria indo para outro lado. Eu, literalmente, saí correndo da casa, pelo menos por umas duas quadras. Entrei num beco e, ali, recuperei o fôlego.
“Andei mais sossegado depois desse trecho, mas ainda assim de olho em tudo. Ninguém reparava em mim, o que era ótimo. O problema é que eu não sabia como sair dali e não podia perguntar para não levantar suspeita. E a cada minuto que passava, eu ficava mais perto de ser encontrado. Se eu tivesse um veículo seria bem fácil achar a saída.
“Foi quando eu vi um morador estacionar uma moto, desmontar, levar o capacete e deixar a chave na ignição. Ou ele era um dos bandidos e pensava que por isso ninguém ia ter coragem de roubá-lo, ou ele achava que por ser conhecido no bairro não seria roubado. Ledo engano, no Brasil sempre há alguém disposto a roubar. Triste realidade. No meu caso foi a mais justificável necessidade.
“Caros leitores, não me orgulho do que fiz em seguida, por dois motivos. Primeiro: eu roubei um veículo e, isso por si só, já é bastante grave. Segundo: eu saí dirigindo uma moto por um bairro que eu não conhecia, com possíveis pessoas armadas querendo me matar, SEM CAPACETE!”
– ISSO TUDO É CULPA SUA! – Cleverson gritou, empurrando a mulher contra a parede com tinta fresca.
Júlia chorava, temendo a violência do marido.
– O que aconteceu? – ele perguntou mais calmo, mas ainda segurando-a contra a parede.
– Eu voltei do mercado e... o procurei aqui, mas não o encontrei... nem em nenhum lugar da casa... então eu o vi pulando o muro na direção em que você estava. – ela explicou em meio a soluços.
– Droga! – ele praguejou, soltando-a. – Muito bem! Ele está desarmado e a pé. Quero todos os homens atrás dele. O deputado não pode saber disso. – ele disse e seus capangas saíram. – E, você, trate de pintar essa sala. – disse a sua mulher e saiu.



“Finalmente encontrei a rodovia e me senti como um personagem do jogo GTA, passando a toda velocidade com a moto, sem capacete, por entre os carros. Ficou ainda mais parecido quando algumas viaturas começaram a me perseguir. Chegando ao limite do plano piloto, senti-me em casa. Conhecia melhor ali do que Planaltina. Não demorou muito para que eu chegasse à avenida dos ministérios e em seguida ao Congresso.
“Ainda acelerado, para não ser preso antes de meu destino, entrei com moto e tudo no prédio principal de Brasília. É claro que uma porção de seguranças me cercou assim que parei. Os policiais chegaram em seguida. Eu era conhecido ali, por isso não houve problemas maiores quando quis pegar meu gravador e mostrar-lhes que eu havia sido sequestrado pelo “ilustríssimo” senhor deputado.
“Acompanhado por dois seguranças e dois policiais, invadi a sessão do plenário, na qual mais uma vez, o deputado Capelário palestrava. A surpresa em seu olhar ao me ver vivo foi impagável.”
– Senhoras e senhores, meu nome é Rubens Fonseca, sou repórter do jornal Terra da Garoa e há algumas horas fui sequestrado por um parlamentar que se encontra presente nesse recinto. Aliás, ele é o palestrante do momento. – ele disse e uma série de murmúrios tomou conta da câmara.
– Você pode provar o que disse, rapaz? – um parlamentar quis saber.
– Achei que não ia perguntar. – ele disse, sorrindo e acenou para a cabine de som.
Em seguida, o conteúdo do seu gravador tomou conta do local. Desde o momento em que ele foi abordado pela limusine do deputado até o seu quase esquartejamento. Sem perder tempo, Rubens citou as milícias e, com o vídeo e a foto, provou o envolvimento do deputado.
– Agora, senhores, se me dão licença, eu preciso ir. Tenho certeza de que os nobres deputados encontrarão o jeito ideal de punir o Sr. Capelário. – ele disse e ia se virando, mas desistiu e continuou. – Ah, deputado! Eu agradeceria muito se o senhor devolvesse minha mochila com meu equipamento.
“Depois de ouvir detalhadamente minha história, os policiais me liberaram e se prontificaram para devolver a moto ao dono. Parece que o governo vai liberar uma força policial para acabar com as milícias, após investigação confirmando a existência de fato, é claro.
“Não sei o que aconteceu com Júlia, mas eu sinto que ela está bem. Ela é uma mulher muito esperta. O deputado teve seu mandato cassado e muitos processos foram abertos contra ele. Apesar disso, nada, porém, me convence de que essa foi a última vez que me encontrei com Raul Capelário.”

                                                            Rubens Fonseca.

domingo, 29 de abril de 2012

Martiniani


Enquanto voava de volta para a Itália ao saber que suas inimigas haviam decidido ir para lá, Marco Martiniani se lembrava da época em que sua família se tornou a dominante no país.
Após a morte de Don Cesca, Don Martiniani mandou incendiar a casa do inimigo. Sabendo desse fato, as famílias que não fugiram, decidiram se juntar aos Martiniani, assegurando-lhes o poder que tanto queriam. Naquele tempo, Marco estava afastado da máfia a pedido de seu pai, Vincenzo.
Marco tinha um filho de 2 anos e sua mulher já esperava outro. Assim que a situação ficou mais tranquila após a queda das famílias mafiosas, Vincenzo deixou que seu único filho voltasse aos negócios. Com o passar dos anos e a velhice chegando, Don Martiniani adoeceu e faleceu, passando seu título para Marco.
Seus filhos, Bruno e Marcelo, cresceram e tomaram seus lugares nas empresas da família, mas não tinham aquela paixão mafiosa do pai e do avô. Eles ouviram a história de seus antecedentes e sabiam seu papel na família, mas ainda assim, não tinham a empolgação que Marco esperava. Bem por isso, ele mesmo veio para o Brasil encontrar as Cesca.
Ele tomava um copo de uísque quando viu a arquitetura conhecida da Itália pela janela do avião. Estava chegando em casa. E, de repente, aquela mudança de cenário tinha sido boa, afinal aquele era o terreno dele. As Cesca não teriam chance em um lugar em que os Martiniani mandam.


O mais rápido que pôde, Glória conseguiu vistos para todos e eles seguiram, no avião particular da Barbatto Construções, rumo à Itália.
– Você tem bastante recursos, minha sobrinha. – Giovanni comentou.
– Pois é, tio. O divórcio tem suas vantagens. – ela disse.
O grupo aproveitou a viagem para se conhecer melhor, principalmente, as primas entre si. Durante a conversa feminina, os dois ex-mafiosos foram se trocar.
Então, Carpo se viu em uma situação inédita até o momento. Ele estava sozinho em um lugar com as quatro Cesca. Elas entraram num assunto de roupas e cabelo. O rapaz fechou os olhos e tentou dormir. Em seus sonhos, ele ouviu a conversa das primas mudar de rumo e chegar até ele. De repente, elas estavam brigando por ele, mas aí viram que era inútil e o procuraram.
Ele deveria decidir com qual queria ficar, mas não conseguia. No fundo ele queria poder ficar com todas. Sabia que não poderia, mas esperava ter mais tempo para pensar nisso, não com os pais de duas delas no cômodo ao lado. Elas o pressionavam, criticavam umas às outras, fazendo-o suar e se desesperar, quase não querendo nenhuma.
– Carpo! – Ana o chamou, notando o suor e seu sono inquieto.
– AHH! – ele acordou sobressaltado. – O que? Ana! – ele disse se acalmando. – O que houve?
– Acho que você teve um pesadelo, mas está tudo bem agora. – ela disse. – Ah! Uma boa notícia. Estamos chegando! – ela informou com um sorriso.
Giovanni e Toni voltaram vestindo seus ternos pretos risca-de-giz, com camisa cinza e gravata preta e camisa branca e gravata cinza, respectivamente.
– Qual é o plano? – Bárbara perguntou.
– Vamos encontrar a herança que o avô de vocês nos deixou e voltar para o Brasil! – Giovanni respondeu.
               Ao pousarem, dois carros os esperavam. Após embarcarem foram levados para o hotel que ficariam.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Inverno


Um mês se passou após a eleição e, nesse tempo, o Grêmio Estudantil Abalo Sísmico (GEAS como ficou conhecido) esteve em plena atividade. Alex já havia cumprido algumas de suas promessas de campanha, mas muitas outras o esperava.
O cardápio da cantina foi o primeiro alvo de mudanças: mais dois sabores entraram na lista de sucos naturais; a lista de salgados foi alterada; uma seção de frutas foi aberta. Em cada setor do colégio, o GEAS agiu de alguma forma.
Às sextas-feiras ocorriam as reuniões semanais, onde era feito o balanço da semana, como gastos, projetos e as autuações. A cada semana surgiam novas ideias e Manu puxou para si a função de anotá-las. Com o inverno chegando, a sugestão de uma campanha para arrecadar roupas para pessoas carentes seria mais do que normal, mas a grande surpresa foi a pessoa que a fez.
– Tenho certeza de que tem muita gente precisando. – Paty emendou ao concluir e, percebendo o silêncio, continuou. – Ninguém vai falar nada?
– Desculpa, Paty, é que ninguém esperava que você tivesse esse tipo de ideia. – Alex falou meio sem jeito.
– O que isso quer di... Ah! Entendi, eu sou a menina rica e fútil que só pensa em bolsas e sapatos, né? – ela disse com raiva.
– É. – Diana concordou também sem jeito.
– Pois saibam que, assim como o Ciano, isso é só uma fachada, uma casca para ter popularidade e sobreviver à sociedade. – ela começou. – Eu e minhas amigas quase nunca conversamos sobre bolsas e sapatos quando estamos sozinhas.
– Muito bem. Peço desculpas novamente, em nome de todos. – Alex disse e todos assentiram. – Por que não lidera essa campanha você mesma? Faremos tudo o que disser. – ele sugere.
– Eu os desculpo. – ela disse com mais calma. – Bateremos o recorde de arrecadação de agasalhos. – ela disse com o seu sorriso radiante de sempre.


Nos dias que se seguem, o colégio é tomado pela campanha e pela vontade de ajudar. Com a ajuda de Ciano, a menina direciona as doações para um ponto específico em um bairro. Após relutar um pouco, a diretora Tulipa concedeu verba para o aluguel de um ônibus para levar os alunos para fazerem a entrega dos agasalhos eles mesmos.
Em duas semanas havia mais de dez caixas grandes cheias de roupas doadas, algumas muito usadas, outras ainda em bom estado e uma nem usada.
– Uma amiga minha comprou uma igual. Não fazia mais sentido usar. – Paty explicou.
Eles deixaram as doações em aberto até completar um mês. Não houve tempo de escolher quem seriam os alunos que iriam entregar, pois dois grandes grupos se voluntariaram antes: os manos e as patricinhas. Acompanhados pela professora Viridiana, os membros do GEAS e as duas tribos sociais seguiram ao seu destino.
Sentado ao lado de Manu, na frente do ônibus, Alex olhou para trás e viu uma cena incrível. Deixando de lado as cascas e fachadas, manos e patricinhas conversavam de modo tranquilo e espontâneo. O presidente conseguiu notar que havia diversos assuntos, tais como esportes, música, notícias do Brasil e do mundo. Ele se arrumou no banco.
– Isso é por sua causa! – Manu disse.
– Minha causa? – Alex perguntou espantado.
– É. Se você não os tivesse chamado e os convencido a entrar para sua chapa, hoje eles ainda seriam apenas dois grupos totalmente diferentes que se recusam a falar um com o outro por puro preconceito. – ela disse.
– Talvez você esteja certa. – ele sabia que Manu estava certa, mas não podia ficar se gabando. No fundo, ele estava feliz e orgulhoso.
No ponto de encontro combinado, uma assistente social, que comandava uma ONG no bairro, esperava-os. Ela os guiou pelo bairro, enquanto eles entregavam os agasalhos para crianças, idosos, deficientes, famílias carentes. As lágrimas caíram de vários rostos, mas também sorrisos apareceram em igual quantidade.
Foi uma experiência única e reconfortante. Na volta para o colégio, o assunto era o mesmo, mas sob visões diferentes. Assim que o veículo parou, já havia alguns carros de pais esperando pelos filhos. A mãe de Paty estava entre eles. Ela já seguia em direção ao carro da mãe, quando Alex a parou.
– Ei, Paty! – ele chamou.
– Sim? – ela virou para encará-lo.
– Mandou bem, guria! – ele elogiou e deu um soquinho no ombro dela.
– Obrigada, Alex! – a menina sorriu, mas ficou claramente vermelha e sem palavras e em seguida foi embora.
– Uau! Você deixou a Patricinha corar. – Manu observou. – Devo ficar com ciúmes? – ela perguntou de modo provocativo.
– Hum, deixa eu pensar... – Alex falou, mas antes de começar a rir, ele já havia levado vários tapas no braço. – Que hora o seu pai vem? – ele perguntou ao se recuperar.
– Às 18h, e o seu?
– Não liguei ainda, mas acho que vou pedir para minha mãe me buscar às 18h. – ele disse.
– Ah é? E por quê? – ela disse agarrando-o pelo braço.
– Tenho que ver umas coisas no GEAS e, talvez, precise da opinião da minha vice-presidente, gostaria de me acompanhar? – Alex fingiu.
– Com muito prazer, Sr. Presidente. – ela disse entrando na brincadeira.

terça-feira, 24 de abril de 2012

As caixas


Fratello mio! – Giovanni disse ao abraçar Toni.
– Giovanni! – o caçula respondeu.
Os dois irmãos se separaram e então foi a vez de Ana abraçar o Giovanni.
– Vejo que cuidou bem da minha menina, rapaz. – ele disse para Carpo assim que Ana o soltou.
– Eu lhe dei a minha palavra, senhor, e eu sempre cumpro a minha palavra. – o economista disse.
– É muito bom saber disso.
Após as apresentações, todos se sentaram em volta do centro de mesa da sala de estar. No sofá do meio, de três lugares, estava Toni na extremidade direita, seguido por Bárbara e Glória. Ao lado do ex-mafioso em uma poltrona, estava Giovanni. Na outra extremidade, próximos a executiva, estavam Lucy, Ana e Carpo, em um sofá de dois lugares.
 Toni contou que logo após a saída do grupo a Paranaguá, decidiu que teria de dizer a verdade, em parte porque não sabia se o atendente dos correios iria guardar seu segredo ou não. Mas boa parte foi por algo que Ana falou.
– O que? – ela quis saber.
– Os Martiniani. – ele disse.
Continuando sua narrativa, o ex-mafioso explicou que contou para o irmão com o número que havia conseguido pelo celular de Ana, em um momento depois do almoço. Após 26 anos sem se falar, eles tinham para conversar, mas Toni usou o mínimo de tempo possível para colocar o irmão por dentro da situação e convencê-lo a ir para Curitiba.
Ponderando os argumentos do mais novo, Giovanni disse que tentaria chegar ainda naquele dia. Andando de um lado para o outro, segurando a ansiedade que o consumia e absorto em seus pensamentos, Toni foi interrompido pela campainha.
– Toni De Lucca? – Glória perguntou assim que a porta foi aberta.
– Deixa eu adivinhar: Glória? – ele perguntou.
– Você já conheceu a Anita e a Lucy, né? – ela disse, entendendo.
– Sim. – ele confirmou. – Entre.


– Pouco depois, vocês chegaram. – Glória acrescentou.
– Então, tio Toni, por que não nos conta o que o nonno Pepe lhe disse? – Ana sugeriu.
– Certo. Meu pai me disse que ele não ia entregar uma caixa para cada um, mas sim todas para mim, e eu deveria, quando achasse mais apropriado, entregar aos outros. – ele disse.
– O momento apropriado. – Giovanni resmungou.
– Uau! Don Cesca queria mesmo que vocês trabalhassem em conjunto hein! – Carpo exclamou e levantou.
– Como assim, Carpo? – Ana perguntou, curiosa.
– Vejam só: o Sr. Toni deveria receber todas as caixas e repassá-las aos irmãos; o Sr. Giovanni deveria contar às famílias sobre o passado mafioso; e o Sr. Carlo deveria dizer que as caixas só abrem se estiverem juntas e ao mesmo tempo. – ele disse e a última informação surpreendeu os ex-mafiosos.
Depois de explicado sobre o segredo do pai de Glória, Toni decidiu.
– Acho que está na hora de abrir aquelas, não concordam? – ele disse.
– Ótima ideia, tio Toni. – Lucy concordou.
– Giovanni, Carpo, ajudem-me a trazer. – ele chamou.
Os três voltaram com três caixas de tamanhos diferentes. Uma mais alta e retangular; outra quadrada e mais baixa que a primeira; e uma terceira mais baixa que todas e também retangular. Elas possuíam nas laterais, dispositivos que as uniam.
O centro de mesa foi substituído pelas caixas, que, após serem encaixadas ficaram em ordem crescente parecendo uma pequena escada. Cada uma das Cesca ficou de frente para sua caixa correspondente. Toni e Giovanni decidiram deixar suas filhas terem a honra junto com Glória. O tamanho das caixas concordava com a idade das primas.
Os três homens e Lucy estavam em frente a elas assistindo, enquanto elas colocavam as chaves e preparavam para girar.
– No três. Um, dois... três! – Ana contou e todas abriram ao mesmo tempo.
Cada uma abriu sua caixa, e todas se surpreenderam com o conteúdo.
– Só isso? – Glória criticou. – Achei que estaria cheia de jóias. Só veio um anel com um papel dentro. – ela disse retirando o papel.
– O que ta escrito? – Carpo quis saber.
– Espera, está em italiano. – ela disse e leu algumas vezes. – Diz aqui: “Para você, meu filho Carlo, lhe dou um anel de rubi para que lembre que rubi não é nada sem a safira e a esmeralda.”
– Que confuso. – Lucy disse.
– Também achei. – Glória concordou. – O que veio na sua, Anita?
– Um envelope com uma moeda de ouro e um bilhete. Lê prima. – Ana pede.
– “Para você, meu filho Giovanni, lhe dou uma moeda de ouro para que lembre que um mafioso sempre guarda seu ouro em casa.”
– Bárbara? – Ana pergunta.
– Veio um quadro e um bilhete enrolados. – ela disse e passou o bilhete para Glória ler.
– “Para você, meu filho Antonio, lhe dou essa pequena obra para que lembre que a arte deve ficar em sua terra natal para ser vista e admirada.”
– O que quer dizer tudo isso? – Lucy perguntou.
– Que seu bisavô nos enganou. Ele nunca mandou ou teve a intenção de mandar o tesouro para o Brasil. – Giovanni concluiu.
– E o que vamos fazer agora? – Carpo perguntou, sem ideias.
As três Cesca se entreolharam, sorriram e Ana falou por todas.
– Nós vamos para a Itália!

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Planaltina


Júlia informou que estavam na cidade de Planaltina e lhe contou tudo o que houve, desde o sequestro do deputado, como as milícias surgiram, até o atual momento. No início era tudo muito bom, as pessoas passaram a ter melhores condições de vida, TV a cabo, internet, mas tudo tem um preço. E quem não pagava era severamente punido, ou mesmo um familiar ou amigo, para servir de exemplo.
Caso a dívida persistisse, a pessoa era morta sem piedade. O pior para a moça era não ter para onde ir, sua melhor opção era continuar casada com Cleverson. Júlia, então, perguntou a Rubens o que ele havia feito para estar ali. O jovem percebeu que teria que dividir informação se quisesse contar com a ajuda da moça.
– Você não é o primeiro jornalista a ser trazido pra cá. – ela disse.
– E você ajudou os outros também? – ele quis saber.
– Não tive como. Normalmente eles não veem aqui em casa. Cleverson e o bando vão atrás dele. E o deputado avisa com antecedência, não como hoje. – ela explicou.
– Hum, talvez seja porque normalmente os jornalistas são locais. Eu sou de São Paulo e meu voo é amanhã. Ele teve que agir rápido. – Rubens deduziu.
– Provável. – Júlia concordou.
– E agora, tudo o que posso fazer é tentar fugir, mas não sei o quão longe consigo chegar, e ainda que escape não poderei fazer nada com relação às milícias. – ele começou. – Não tenho como provar que o deputado conhece Cleverson e muito menos que ele comanda as milícias.
– Eu posso ajudar nisso. Que tipo de prova precisa? – ela perguntou.
– Fotos. Seria ótimo. – ele respondeu.


– Tem uma foto deles dois na época que o candidato tomou posse. Peraí. – ela levantou e foi em outro cômodo. – Aqui está. – disse ao voltar e entregou para Rubens.
– Isso resolve, mas sozinha não vale nada. Sem uma foto mostrando que Cleverson extorque os moradores, essa não adianta nada. – ele disse.
– Hum, posso conseguir isso. – Júlia disse.
– Você tem certeza? Não quero te arrumar confusão. – Rubens avisou.
– Pode deixar. Eu tenho meu jeito. Enquanto isso, por que não começa a pintar a sala? – ela disse, piscou e saiu.
Rubens arregaçou as mangas, forrou o chão e cobriu os sofás com jornais velhos, pegou o pincel e começou a pintar. Escolheu uma parede em que pudesse ver o rapaz que havia ficado de guarda na casa. Júlia chegou próxima onde o marido estava, um mercadinho. Ela entrou e fingiu estar olhando o celular, quando estava gravando um vídeo da rotina de Cleverson.
– Como o senhor é morador antigo, seu Astolfo, eu vou lhe dar mais um dia, mas não atrase, ta bem? – o rapaz disse para o dono do estabelecimento. – E me dá uma garrafa daquela birita que eu gosto. – ele disse e o velho vendedor pegou o produto de uma prateleira e entregou para Cleverson.
Júlia decidiu que já estava bom, quando o rapaz olhou para ela.
– O que você ta fazendo, mulher? – ele disse e avançou nela.
Rapidamente, ela saiu da parte do vídeo e tudo o que ele viu foi a tela das chamadas perdidas.
– Estavam me ligando. Vim comprar um salgadinho. Deu vontade. – ela se explicou recebendo o celular de volta.
– Sei. Vai embora mulher. Não quero aquele jornalista sozinho na minha casa. – Cleverson disse e saiu do mercadinho.
Com alguns respingos de tinta na roupa, Rubens foi até a cozinha quando Júlia voltou.
– Um vídeo? – ele disse espantado. – É bem melhor do que eu esperava.
Ela tirou o cartão de memória do celular e entregou ao rapaz, que guardou no seu bolso interno da calça.
– Alguma ideia de como eu saio daqui? – ele perguntou.
– Sim, mas é arriscado e você vai ter que fazer o que eu disser.
– Certo. – Rubens concordou e escutou o plano de Júlia.

domingo, 22 de abril de 2012

Em terreno inimigo


Rosário estava a seis meses como recepcionista e, mesmo passado o tempo de experiência, ainda achava que era vigiada e analisada, por isso sempre dava o seu melhor durante o trabalho. Assim que alguém entrava no prédio, ela sorria cordialmente, e foi o que fez numa bela tarde de sol, quando um casal chegou até ela.
– Queremos falar com o Sr. Parvo. – Érica avisou.
– Vocês têm hora marcada? – a recepcionista perguntou.
– Não, mas ele está nos esperando. – Zé respondeu.
Havia um protocolo padrão para atendimento, afinal o empresário não poderia receber pessoas sem hora marcada. Entretanto, tinha uma exceção, quando alguém dizia que ele estava esperando, e nesse caso, ela deveria ligar para confirmar, pois a maioria das vezes, Parvo recebia as pessoas.
Não foi diferente daquela vez, pelo telefone, ele disse a Rosário para mandar os dois jovens subirem. Concentrada e focada em seu trabalho, a moça não viu quando um homem musculoso de terno e gravata, e carregando uma mala entrou no prédio e se dirigiu ao elevador.
Ao subir 2 andares, o elevador, em que Maurição estava, parou. Ele olhou para a câmera do local e falou pelo comunicador.
– São vocês, rapazes?
– Quem mais seria, Maurição? – Rob devolveu.
– Pode trocar de traje tranquilo, nós estamos no controle de todos os aparelhos eletro-eletrônicos desse prédio. – Joca avisou.


Rob e Joca saíram da AGESP e chegaram à empresa de Parvo, antes de todos os outros. Após passarem no teste de piloto, eles pegaram os materiais de que precisariam: o mini-helicóptero; dois laptops; comunicadores; e dois combos do Burger King. Eles não tinham almoçado ainda.
Quando conseguiram chegar perto o suficiente do sinal do prédio de Parvo, eles acessaram e tomaram conta do sistema da empresa. Assim, puderam pousar no heliporto/terraço do prédio sem serem notados. Dessa maneira, quando Maurição entrou no elevador, eles já estavam prontos para guiá-los. O rapaz mais forte tirou o terno e revelou o uniforme da equipe de limpeza da empresa. Socou a outra roupa na mala e ajeitou seu novo traje.
– Certo, rapazes, levem-me onde a Duda está. – ele pediu.
– Subindo até o sexto andar. – Rob disse apertando um botão.
Em outro elevador, Zé e Érica seguiam para o andar de Parvo.
– Décimo ela disse, né? – o rapaz disse, lembrando as palavras da recepcionista.
– Pessoal, tudo correndo conforme o planejado? – Érica quis saber.
– Sim, senhora. Tudo de acordo. – Joca respondeu.
– Ótimo. Você está pronto? – ela perguntou a Zé.
– Tenho outra escolha? – ele disse, sério.
As portas do elevador se abriram e dois homens armados os esperavam.
– Venham conosco! – Beckert disse com um sorriso e em seguida os empurrou com a arma.
O capanga da frente abriu a porta da grande sala do empresário. Érica e Zé novamente foram empurrados. Aos trancos, eles entraram no recinto, sendo recebidos pelo sorriso cínico e malvado de Parvo.
– Olá, sejam bem-vindos! Por favor, sentem-se! – ele disse de braços abertos.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Milícia


Rubens sentiu que o carro andava por um trecho de terra, e ele sabia que algumas cidades fora do plano piloto tinham ruas assim, mas não saberia dizer em qual estavam no momento. A limusine parou. O guarda-costas do deputado abriu a porta e saiu. Com a arma apontada, mandou Rubens sair também. O jornalista se viu em frente a um grupo de 6 rapazes armados. Capelário abriu a janela e falou com o líder deles.
– Livre-se dele para mim, sim?
– O que eu ganho com isso? – o rapaz perguntou.
– Digamos que você deixa de perder tudo o que eu lhe proporciono aqui. – o político falou e Rubens achou a frase intrigante.
A limusine partiu deixando o jornalista sozinho com grupo de moradores da cidade que ele não sabia qual era.
– Que tal isso: vocês me deixam ir e todo mundo fica feliz. – ele disse e deu uns passos para trás.
Numa velocidade impressionante, um dos rapazes avançou no paulista e o atingiu em cheio na boca do estômago, fazendo-o arquear para frente.
– Que tal isso: você fica quieto e vem com a gente. – ele disse para Rubens.
– Parece bom para mim. – o jornalista conseguiu responder.
Empurrando-o, o grupo o levou para os fundos de uma casa que, Rubens supôs pelo tamanho e pelas melhorias, ser do líder do grupo. No quintal havia um pequeno pomar e um gramado isolado próximo à parede. O tanque e os varais também ficavam ali. Rubens notou a presença de uma mulher no cômodo dos fundos que, ele imaginou ser a cozinha. Em seguida ele foi jogado contra o muro, caindo no gramado.
Os 6 homens empunharam suas armas, destravaram e as apontaram para o jornalista desarmado. Antes que o líder pudesse dar o sinal, sua mulher gritou e saiu da casa.
– Cléverson, não faça isso! – ela disse ao chegar perto do marido.


Cléverson e Júlia se amaram desde sempre, da infância ao casamento, mas o rapaz era muito ambicioso e viu no tráfico um meio rápido para conseguir o que queria. Seu sucesso só veio quando sequestrou o deputado Capelário, em sua visita à cidade. O político lhe fez uma proposta que mudou sua vida. Se o rapaz o ajudasse a vencer às eleições, ele o tornaria muito bem importante.
Sua intenção era a criação de milícias para recolher e administrar o dinheiro do povo pela benfeitoria que seria financiada por Capelário, mas sem o conhecimento daquele. O nobre deputado apareceria pouco na região e não teria muito contato com as pessoas. Seu objetivo era entrar no plenário, para ele não importava o que aconteceria com a comunidade. Ambos cumpriram suas partes e assim estava há mais de um ano.
– Já falei para não se intrometer nos meus assuntos, mulher! – o rapaz falou e empurrou Júlia.
– Ele pode ajudar. – ela disse.
– Como? – o marido quis saber.
– Eu quero pintar a sala, lembra? Você já até comprou tinta e pincel, mas sempre de chamar alguém para fazer. Esta aí, e você nem precisa pagá-lo por isso. – ela disse, deixando-o pensativo.
Ele não gostava de ser desmandado e desmoralizado pela mulher na frente do bando, mas dessa vez, Júlia tinha razão. Nesse momento, seu celular tocou. Estava na hora de receber pelos auxílios dados. Cléverson deixou um de seus homens de guarda ao redor da casa.
Dentro da moradia, Rubens pediu para ir ao banheiro e Júlia lhe indicou a direção. Ao fechar a porta, ele se certificou de que ninguém podia olhar pela janela e abriu a camisa. Lá estava, preso por fita adesiva, o fio que ligava um microfone ao um gravador. O jornalista usava isso quando fazia matérias em que as pessoas tinham dificuldades em falar sobre o assunto. E apesar de ainda precisar do resto de seu material, aquilo já faria muito estrago.
De volta à cozinha, foi-lhe oferecido café. Ele aproveitou a oportunidade para obter mais informações.
– Por que fez isso? – ele perguntou.
– Gosto de café. – ela respondeu sorridente e o fez rir.
– Por que me ajudou? – ele perguntou novamente.
– É uma longa história. – ela disse.
– Meu tipo preferido. – dessa vez foi ele quem a fez rir.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Encenação


Sem precisar se preocupar em não fazer barulho, o grupo avançou de modo considerável e, nas duas horas que se seguiram, terminou de saquear todo o andar inferior. Tecno Léo até colocou uma música para eles ouvirem, com volume suficiente para se ouvir em todo o shopping, mas não do lado de fora.
Incrivelmente, não havia seguranças do lado de fora, apenas as câmeras e os alarmes, que seriam facilmente anulados por Léo. Eles juntaram todas as malas cheias das jóias roubadas e foram até a entrada/saída da extremidade.
– Enfim terminamos! – Facada comentou.
– Quase, ainda falta uma coisa. – Joel informou. – Bomber!
– Na escuta, Joel, e pronto para a próxima fase.
Bomber guiou o líder do grupo até a sala de monitoramento, enquanto Taís e Facada esperavam próximos à porta. Assim que entrou, Joel notou os seguranças desacordados e caídos em suas cadeiras. Bomber girou a sua e ficou de frente para o amigo.
– Fez um bom trabalho aqui. – Joel elogiou.
– Obrigado. Já são 3h da manhã. – o infiltrado lembrou.
– Sim, são. Está pronto para nossa encenação? – ele perguntou.
– Estou! – Bomber afirmou e se viu na mira da arma do amigo.
O mais musculoso empurrou o braço de Joel para fora tentando desarmá-lo, este apenas atirou contra a parede. Bomber fingiu dar um soco no rosto do amigo, que fingiu cambalear para trás, pegou embalo e encostou a sola do pé em sua barriga, empurrando-o levemente em direção a sua cadeira.
– Imagino que vai querer me amarrar antes. – Bomber disse.
– Sim, depois de inconsciente, o corpo fica mais pesado. – Joel disse.
Bomber assentiu com a cabeça e deixou o amigo o amarrar na cadeira. Joel amarrou as mãos do agente duplo atrás da cadeira, depois envolveu a corda em seu tronco e o prendeu também. Para finalizar juntou os pés com um nó.


– Você não quer que eu tente com um soco primeiro? – Joel ofereceu.
– Com todo o respeito, meu amigo, mas um soco seu não vai me derrubar. – Bomber falou.
– É, eu sei. – Joel concordou. – Ta pronto? – ele disse pegando um pedaço de pano.
– Sim!
– Últimas palavras? – Joel perguntou com o pano a 5 cm da boca do amigo.
– Consiga muito dinheiro com aquelas jóias.
– Eu vou. – Joel garantiu e amordaçou Bomber. – Até daqui a dois dias, Grandão. – o líder do grupo perguntou após girar o revólver em sua mão e impulsionar seu braço para trás.
Bomber assentiu e levou uma coronhada na cabeça que o fez desmaiar. Joel pegou todo e qualquer equipamento que pudesse ligar o amigo com o roubo das lojas. Correu escada abaixo ao mesmo tempo em que falava com Léo.
– Abra a porta da extremidade, aquela pela qual entramos.
– Abrindo entrada B do shopping. – ele disse e digitou o comando no laptop.
Enquanto os três companheiros esperavam a porta abrir, o primeiro segurança a ser atingido pelo tranquilizante acordou. Ele olhou ao redor e logo notou as joalherias arrombadas e sem seus produtos. Tentando se lembrar do que havia acontecido, mas sem sucesso, ele chegou a única conclusão possível.
Um grande alarme soou e a porta que já estava metade aberta voltou a fechar. Joel e os dois amigos tiveram que pensar rápido e rolar para sair do shopping.
– Caraca! O que foi isso? – Facada quis saber.
– Alguém disparou um alarme, Joel. Já tem viaturas da polícia a caminho. – Léo informou.
– Muito bem. – Joel disse, coçando o queixo. – Facada, Taís e Léo, sigam pela rota 1. Charger e eu vamos pela rota 2. Desce aqui, amigão. – ele disse para o mecânico. – A gente se encontra em dois dias no esconderijo!

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Todos juntos


Antes de descer da limusine que a havia levado ao aeroporto da empresa, Glória preencheu um cheque para dar ao segurança que a ajudou. Valdez vendo o que iria acontecer, tentou oferecer mais ainda seus préstimos.
– Posso acompanhá-la até São Paulo, se quiser. – ele disse.
Ela ainda estava machucada, não tinha ido ao hospital, preferiu ir direto ao aeroporto. Seria bom ter uma companhia, uma segurança para ir para a capital paulista, mas ela sabia que lealdade não era o forte do rapaz, e não pretendia arriscar sua vida no caso de um dia alguém poder pagar mais do que ela.
– Não, obrigada. Agora, eu me viro. – ela disse e lhe entregou o cheque.
Glória entrou no avião e, com uma ordem sua, ele decolou. Antes de qualquer outra coisa, ela foi olhar seu celular e nele tinha uma mensagem de Lucy.
“615131519 16181 32118920921 141 31191 415 2015149, 5143151420185-141519 121. 205 11315, 2019.”
Ela logo reconheceu o código alfanumérico que usava com a filha e não teve dificuldades em decifrar a mensagem, afinal após tanto tempo de uso as letras e seus números correspondentes já estavam gravados em sua memória. Não demorou para ela chegar ao seguinte resultado.
“Fomos pra Curitiba na casa do tio Toni, encontre-nos lá. Te amo, bjs.”
– Essa é minha filha. Muito esperta, Lucy. – Glória elogiou e apertou um botão. – Azevedo, mudança de destino, nós vamos para Curitiba.
– Sim, senhora. – o piloto respondeu.
Por ter feito várias viagens com o avião particular, a empresária passou a deixar algumas roupas no veículo. Decidiu por algo mais casual e vestiu uma calça jeans e uma camisa creme de manga comprida. Usou o kit de primeiros socorros para limpar e o estojo de maquiagem para disfarçar os ferimentos. E então descansou o resto da viagem.


No caminho de volta, o silêncio reinava dentro do carro de Bárbara, que ainda estava sendo dirigido por Carpo. O rapaz não conseguia parar de pensar no que haviam descoberto e, mal sabia ele, que as Cesca estavam pensando a mesma coisa. Ana lembrava bem o trecho da conversa que tinha sido confuso.
– O que meu avô disse para o senhor? – ela perguntou.
– Nada. Ele só me chamou para os meus irmãos acharem que eu também tinha um segredo. – Toni respondeu.
Ana achou aquilo estranho, mas não quis duvidar da palavra do tio que acabara de conhecer.
– O senhor chegou a ir aos correios para ver se algo tinha chegado?
– Não, eu sabia que só chegaria um ano depois e que seria no Rio, e nesse tempo, eu ainda não estava bem financeiramente, não tinha como eu viajar. Quando tive condições, já não tinha mais interesse. – ele explicou.
Na hora pareceu coerente, mas ao parar para pensar, Ana viu que aquilo era muito contraditório. Ele era um ex-mafioso recém chegado da Itália, se houvesse uma mínima chance de ele conseguir dinheiro fácil para recomeçar a vida, ele iria atrás.
Bárbara havia tido mais informações do que gostaria em um dia. Primeiro, seu pai lhe contou sobre seu passado secreto e, além de tudo, ele mentiu sobre isso. “Por quê?”, era só o que ela se perguntava.
Lucy não parou muito nessa questão. A jovem carateca só pensava se a mãe dela teria recebido e lido sua mensagem. Ela queria que Glória estivesse ali participando da aventura também.
Já era noite quando eles chegaram à casa de Toni. Ao abrirem a porta viram, sentada no sofá da sala de estar, conversando com o ex-mafioso, a mais velha das Cesca.
– Mamãe! – Lucy gritou e agarrou o pescoço da empresária e as duas se deram um longo e apertado abraço.
– Como você está, meu amor? – Glória perguntou.
– Eu to bem, e você? Nossa! O que houve com seu rosto? – a menina perguntou. – Você andou brigando? Quem bateu em você? – ela emendou com tom assustado.
– Calma, eu já explico. – ela disse e cumprimentou Ana.
– Ta tudo bem mesmo, prima?
– Sim, Anita, não se preocupe. – Glória a acalmou.
– Você foi num hospital? Não tem nada mais grave? – Carpo quis saber.
– Não foi nada demais, mas obrigada por se preocupar. – Glória disse. – Então, essa é a minha prima mais nova? – a empresária se dirigiu a Bárbara. – A que ainda estava na barriga quando saímos da Itália. – ela continuou, segurando uma das mãos da loira e passando a outra mão em seu rosto. – Muito linda, mesmo. Uma verdadeira Cesca! – Glória finalizou com um sorriso.
– Então, tio Toni. – Ana disse com todos já sentados. – Por que o senhor mentiu para nós? – ela perguntou, indo direto ao ponto.
– Eu menti para vocês? – ele disse, fingindo espanto. – Acho que você está equivocada, minha sobrinha.
– Por favor, senhor Toni, não nos enrole mais, já sabemos de tudo. – Carpo disse.
Ana explicou o que houve em Paranaguá e como descobriram que Toni havia pegado um pacote proveniente da Itália um ano após se mudar de lá.
– Você nos deve uma explicação, tio. – Ana exigiu.
– Sim, eu devo e farei isso assim que o último convidado chegar... Oh, lá vem ele. – Toni disse e se levantou.
– Último convidado? – Ana perguntou.
– Sim, alguém que você conhece muito bem. – ele respondeu e abriu a porta, revelando um homem alto vestindo uma calça jeans e uma camisa, e usando um chapéu.
– Boa noite a todos! – Giovanni cumprimentou.
– Papai! – Ana ficou em pé e gritou. Em seguida, todos se levantaram também.

domingo, 15 de abril de 2012

A parte de cada um


Não foi fácil convencer Krusma a conceder um mini helicóptero motorizado com 3m de comprimento e 1m de altura, e armado com duas metralhadoras de alta pressão com capacidade de 10 tiros por segundo. Mas mais difícil ainda foi convencê-lo a deixá-los usar um helicóptero de verdade.
– Para que vocês querem um helicóptero? – Krusma esbravejou.
– Ora, você mesmo disse que Parvo não é confiável. Precisamos de um meio de fuga. – Zé explicou.
– E quem vai pilotar? Já disse que não vou ceder ninguém para essa missão. – Krusma lembrou.
– Rob e Joca. Eles são muito bons. – Zé respondeu.
– Ah é? – o chefe disse sem acreditar.
– Os melhores do país, senhor. – Rob confirmou.
– Como podem provar isso? – o chefe quis saber.
– Arranje-nos um helicóptero e te provamos. – Joca disse.
– Muito bem. – Krusma concordou.
O plano de Zé era simples. Ele e Érica iriam até o prédio da empresa de Parvo e entrariam pela porta da frente, já que o empresário os estaria esperando. A espiã levaria um envelope com as cópias impressas e um pendrive com as cópias eletrônicas das provas que incriminavam Parvo.
Numa hipótese perfeita e honesta, eles seriam levados para uma sala, na qual Duda já estaria. Érica entregaria o envelope e todos sairiam livres como se nunca tivessem estado ali antes. Mas é claro que Zé não contava com essa possibilidade, ele estava pensando no pior.
Eles seriam levados para uma sala, em que estariam sozinhos com Parvo e seus seguranças. Desarmados e sem defesa, pelo menos para o empresário, seria a situação perfeita. Na ideia de Zé, esses seriam os papéis dele e Érica.


– Onde vocês aprenderam a pilotar helicóptero? – a espiã perguntou, enquanto seguiam para o heliporto da agência.
– Battefield. – Joca respondeu, deixando a menina de olhos arregalados.
Maurição faria uma parte muito importante: o resgate de Duda. Ele entraria como um executivo, de terno e gravata, ao mesmo tempo em que Érica e Zé. Assim, com os companheiros ocupando a recepcionista, ele chegaria aos elevadores facilmente.
Rob e Joca ficariam no topo do prédio, dentro do helicóptero e com seus laptops entrariam no sistema do edifício para dar suporte a Maurição e direcioná-lo até a garota loira. Assim que entrasse no elevador, o rapaz musculoso iria trocar de roupa, do terno passaria para um uniforme de faxineiro.
Zé tinha certeza que, após receber e verificar o envelope, Parvo iria mandar matá-los. Nesse momento entraria o mini helicóptero para dar cobertura. A partir daí, ele e Érica só precisariam ir ao heliporto do prédio e fugir com os dois rapazes que os esperavam. Isso, claro, assim que Maurição já estivesse com Duda em segurança.
– E então, rapazes? Vocês não são os melhores do país? – Krusma provocou após 5 minutos esperando.
– Devíamos ter pedido um helicóptero de guerra. – Rob disse.
– Calma! Deve ter algum padrão parecido. – Joca disse e apertou um botão que acendeu um painel. – Não disse? É isso. – ele sorriu animado e começou a apertar uma série de botões que acabou ligando o motor e fazendo a hélice girar, movimentando a grande máquina.
Um grande vento se formou devido ao trabalho da hélice. Do alto, Joca gritou.
– ASSIM ESTÁ BOM PARA O SENHOR?
– SIM! AGORA POUSEM! – Krusma mandou.
Já habituados com os novos comandos, eles desceram mais facilmente.
– E então, senhor? O que acha do meu plano? – Zé quis saber.
               – É muito bom, rapaz. Pode seguir em frente. – Krusma aprovou.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O que te inspira?

Foi-me indicada uma tag, que eu imagino que seja algo parecido com selo, pela indicação interblogs, mas em forma de perguntas. O blogueiro amigo que me indicou foi o Anderson J.
O negócio é dizer 10 coisas que te inspiram, então, vamos a elas:

1 - A vida (digo de um modo geral, pois uso minhas experiências como inspiração);
2 - Meus amigos (nossas conversas, zueiras, saídas e eles mesmos em si);
3 - Músicas;
4 - Filmes (vide os posts de crítica ^^);
5 - Notícias;
6 - Desenhos (cartoons e animes);
7 - A sociedade;
8 - A esperança;
9 - A felicidade;
10 - Televisão (bem raro);



É isso aí! Agora devo indicar 11 blogs:

Doces Desamores

Umas e outras...

Empadinha frita

Sook

Inlegau

#*#* Palavras ao bel prazer ! *#*#

Tudo que nós garotas precisamos

Razão e Resenhas

Sentir e viver o tempo

Humor em conto

Que vontade de escrever


quarta-feira, 11 de abril de 2012

Vice-presidente


Nos dias que se seguiram à eleição do grêmio, Manu adotou um visual e uma postura discreta, pois se sentia muito envergonhada. Ela passou a chegar em cima da hora e a usar a entrada dos professores, para não ser vista pelos alunos.
Com o começo do inverno, ela pôde usar um gorro. Prendeu os cabelos em um rabo de cavalo para baixo. Suas olheiras eram visíveis e não havia emoção em seu olhar. Para sua sorte nenhum dos membros do grêmio estudavam em sua sala e da sua chapa, apenas Mauricinho, mas esse não apareceu no colégio desde que levou o soco de Alex.
Em sua turma, ninguém a reconhecia, “Ótimo”, ela pensou, afinal era seu objetivo. Na hora do recreio passava despercebida por todos, era apenas mais uma na multidão de alunos.
Alex não conseguia encontrar Manu em nenhum lugar, mas sabia que ela estava no colégio. Ele olhou na cantina, no bosque, na quadra de esportes, no pátio principal, nos laboratórios e salas de músicas, até perguntou da porta nos banheiros femininos. Em sua última tentativa, foi à biblioteca, o lugar mais vazio durante o recreio.
Ao constatar que Manu também não estava lá, ele apoiou-se na janela e então a viu, indo em direção ao bosque. Foi muito difícil reconhecê-la, se ela não estivesse usando os mesmos tênis do dia da eleição, talvez ele não a tivesse notado.
Ela sentou-se na grama e recostou-se em uma das árvores. Fechou os olhos e ouviu o cantar dos pássaros e o ruído das conversas alheias. Não esperava ninguém, quando Alex se posicionou na frente.


– Você se tornou uma pessoa muito difícil de encontrar nos últimos dias, sabia? – ele perguntou.
– Sim, essa era a ideia. O que você quer? Esfregar na minha cara a sua vitória? Ou me dizer o quanto eu fui tola em acreditar no Mauricinho? Que você estava certo e eu, errada. – ela retrucou asperamente.
– Eu poderia, mas não é o que farei. – ele disse simplesmente.
– Então o que? – ela perguntou sem entender.
– Quero que seja a vice-presidente do grêmio.
– Achei que o Solano fosse o vice-presidente.
– Foi apenas uma jogada de marketing para a campanha, ele mesmo renunciou. É o Diretor de Esportes agora. – Alex explicou.
– E por que eu? – ela disse e o garoto se agachou para responder.
– Porque eu gosto de você e me sinto culpado por tudo o que passou devido ao chiclete que eu não joguei. Você era uma garota radiante e cheia de alegria e eu, de certa forma, te tirei isso. – ele começou. – Alguns dias atrás, você teve outra decepção, talvez parte por minha culpa de novo...
– Não foi sua culpa. Eu sou a única culpada pelo que aconteceu nas eleições. Eu mesma me derrubei. – ela disse, o olho começando a ficar vermelho.
– Então me deixe ajudá-la a levantar. Deixe-me devolver o brilho dos seus olhos e a alegria do seu sorriso. – ele disse e sentou-se ao lado dela.
– Alex, por que você está fazendo isso? – ela perguntou novamente.
– Eu já disse, gosto de você. – ele repetiu e acariciou o rosto dela. – Deixarei isso mais claro. – ele disse e a beijou.
Indo ao encontro de Ciano no bosque, duas garotas viram a cena do beijo e uma delas se espantou.
– Não sabia que o Alex gostava de manas. – Paty comentou e Diana riu.
– Até onde eu sei, não gosta. Aquela é a Manu. – a morena explicou.
– Você ta brincando, né? – a patricinha perguntou sem acreditar.
– Não, vi ela sair do carro da mãe dela um dia em que cheguei atrasada, e notei que ela tem vindo assim desde então. – Diana disse e elas prosseguiram.
Depois de corresponder ao beijo, Manu o encerrou ao lembrar como estava.
– Para! Eu estou feia. – a menina de gorro disse.
– Não para mim. Você está linda, como sempre foi e sempre será. – Alex disse e ela o abraçou forte, deixando as lágrimas caírem.
Eles se soltaram e o rapaz voltou ao assunto inicial.
– Você não respondeu: aceita ser a vice-presidente do grêmio? – ele perguntou e a garota sorriu.
– Ora, mas é claro que eu aceito. – ela respondeu com um olhar radiante e um sorriso alegre.